terça-feira, 5 de julho de 2011

Uma luz no fim do túnel

         Em Imperatriz-MA, como nas demais cidades do Brasil a fora, algumas mulheres ainda exercem a profissão mais antiga do mundo: a prostituição. São mulheres de várias faixas-etárias, que por alguma infelicidade preparada pelo acaso (destino?) acabaram por se submeterem a alugarem seus próprios corpos para fins sexuais. Em nossa cidade há o setor chamada "Farra velha", que há décadas é bastante famoso por ser ponto de prostituição e venda de drogas. Lá as mulheres são "exploradas" sexualmente pelas "madames", ou melhor dizendo, cafetinas.
         
          Para a sociedade em geral, as prostitutas são consideradas uma escória. Mas para D. Francisca, coordenadora da Pastoral da Mulher em Imperatriz, elas são pessoas que precisam de ajuda para serem resgatadas dessa vida de sofrimento. Desde 1974 ela é responsável pela execução de projetos que ajudam, tanto garotas de programa, como mulheres extremamente probres e agredidas pelo marido, a aprenderem uma profissão e readquirirem a dignidade. Foram várias as mulheres ajudadas por ela, embora afirme que seu trabalho não seja ajudado pela prefeitura ou qualquer outra entidade pública. 

         Embora muitas vezes seu trabalho não seje valorizado pelas próprias garotas - aquelas que insistem em continuar vendendo o corpo- D. Francisca se sente realizada e motivada por ter resgatado algumas e continuará até o fim de sua vida sendo uma luz no fim do túnel para quem se encontra sem esperança "acorrentada no fundo de uma caverna".

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tanatopraxia? Vivência em uma funerária

             É sábado à tarde. O sol está escaldante e a sensação é de calor abrasador, como é de costume no clima de Imperatriz – MA. As ruas do centro da cidade estão desertas. Lojas fechadas. Trânsito quase parado. Os bares estão lotados com pessoas relaxando, tomando uma gelada e deliciosa cerveja e ouvindo músicas estilo sertanejo e forró. Alguns estão nas portas de suas residências conversando, contando piadas e relaxando após uma longa semana de trabalho. Mas, enquanto a maioria aproveita o fim-de-semana, algumas pessoas naquele exato momento estão desempenhando um trabalho nobre.

            Eles são identificados pela sua vestimenta branca – são enfermeiros. O local onde trabalham parece ser impecavelmente limpo. A fachada possui uma porta de vidro fumê. Ao entrar, sente-se um embriagante cheiro de formol. As paredes são pintadas de azul-celeste, harmonizando-se perfeitamente com os assentos brancos de plástico espalhados na recepção. O silêncio mórbido toma conta do lugar.  Quem entra ali se fascina com a variedade de arranjos de flores. Mas certamente ninguém desejaria recebê-las como presente. Os profissionais que ali trabalham lidam com a morte todos os dias. Desempenham um papel fundamental na sociedade. Todo o mundo já teve um parente ou um amigo que passou pelas mãos deles. Certamente um dia também passaremos. Você deve imaginar o lugar ao qual me refiro. Este é o cenário de uma funerária.

          Ao aproximar-me da funerária, sinto um frio subindo na espinha. Logo vejo vários caixões, também chamados de urnas funerárias. São caixões bem variados. De todos os tamanhos. Alguns são bem largos e reforçados para suportar o peso de pessoas obesas. Outros são bem compridos – ideais para pessoas altas. Lá também se encontram caixões bem pequeninos, pintados de branco. Dignos de comportar o corpo de uma criança, que por sua inocência, virou um anjinho e foi ao encontro de Deus. A madeira é bem trabalhada, formando desenhos de temática religiosa. Em algumas tampas observa-se a imagem de Jesus Cristo sendo crucificado. Em outras, a representação da Bíblia aberta. Ambas as imagens estavam pintadas de dourado.

               Não demorou muito, um rapaz veio me atender. Ele aparentava ter cerca de 40 anos. Era moreno, baixo e vestia uma calça jeans e uma camiseta branca. Calçava um chinelo de dedos. Demonstrou bastante gentileza com um sorriso no rosto e logo perguntou o que eu queria. Ficou meio apreensivo ao saber que eu queria entrevistá-lo, pois dizia não ser o dono do local. Puxou uma cadeira e pediu para eu esperar a proprietária. Seu nome é Cleiton Luís. Trabalha na funerária há seis anos, mas já trabalhou em várias coisas, até mesmo de ajudante de pedreiro. A oportunidade de se envolver com a sua atual profissão surgiu com o convite de sua irmã, que é a dona do estabelecimento. Passou por um treinamento para tornar-se tanatopraxista.

             Este profissional utiliza de técnicas modernas, injetando, por meio de máquinas apropriadas, determinado líquido em cadáveres, e drenando seu sangue durante o processo de injeção. Conservando, assim, seus traços como eram em vida. O cadáver fica com aparência saudável, com a face rosada. Há ganho de massa muscular, suas pernas e braços ficam mais grossos e flexíveis e a boca e os olhos fechados. O tempo médio de preparação é de duas horas. Outros métodos como formolização, no qual são aplicados cerca de 500 mililitros de formol diluído em água; embalsamamento, procedimento que consiste na retirada das vísceras; e mumificação, aceita em casos em que o corpo está com mais de cinco dias de óbito e estado de apodrecimento avançado; são utilizados apenas em casos especiais.

           Quando as pessoas ficam sabendo do trabalho que Cleiton desempenha, reagem com surpresa, admiração, fascínio, curiosidade. Ele gosta do que faz. Só mudaria de profissão se fosse para ganhar um salário melhor. A remuneração é de 700 reais. Durante todo esse tempo nunca viu ou ouviu nada de esquisito no local. Nem vultos, nem vozes. “Essas coisas só existem na cabeça de pessoas que fantasiam. Mortos não fazem mal a ninguém”, respondeu uma senhora idosa que estava saindo de uma sala.  Ela estava vestida com um longo vestido amarelo. Seus cabelos eram grisalhos e estavam presos. Era branca e usava óculos. Ao me avistar sentada na recepção, olhou-me fixamente com uma expressão de curiosidade sobre minha presença ali. Ao apresentar-me e dizer quais as minhas intenções, prontificou-se a responder minhas perguntas.

              Seu nome é Irene Martins. 68 anos. É graduada em enfermagem e especializada em tanatopraxia. Trabalha há mais de 20 anos na profissão. Durante todos esses anos, não tem idéia de quantos caixões foram vendidos até hoje. Começou trabalhar numa funerária por necessidade e após ter passado por um trauma. “Quando meu pai morreu foi maltratado. Trataram ele pior que cachorro. Por isso, comecei trabalhar nessa profissão com meu irmão, para ajudar as pessoas e ser solidária”.  Não são todos os dias que aparecem clientes, passam de cinco a seis dias sem vender nenhum caixão. Os preços são bem variados. Caixões para crianças custam de 100 a 600 reais. Os de adultos variam de 300 a 10 mil reais.  

             Apesar de sobreviver da funerária, sente-se feliz quando não aparecem clientes. Seu objetivo não é somente ganhar dinheiro, mas sim ajudar. Confortar pessoas que perderam seus entes queridos na morte. Ao perguntar sobre o que as pessoas falam de sua profissão, debruça-se sobre o balcão de mármore preto da recepção, olha fixamente para o horizonte e diz: “as pessoas que tem Deus e amor acham a profissão nobre. Agora, os fracos de fé e pobres de espírito ridicularizam. Trabalhando aqui não me sinto feliz. Me sinto irmanada”.

domingo, 10 de abril de 2011

O 11 de setembro e o estereotipo árabe


Era terça-feira, 11 de setembro de 2001. O dia havia começado normal e prometia ser rotineiro como todos os outros. Dona Maria lembra que estava no mercado comprando mantimentos para o almoço da família quando olhou para a televisão e ficou aterrorizada: “Lembro-me que eu tava numa banca de verdura, quando eu olhei pra televisão e vi a noticia. Fiquei muito assustada com aquilo tudo que era um horror. Chegando em casa eu liguei a televisão pra saber o que realmente havia acontecido. Ao passo que eu fiquei assistindo o noticiário fui entendendo o que tava acontecendo. Senti muita tristeza. A partir daí fui acompanhando a história . Fiquei muito triste ao ver vidas sendo ceifadas, filhos perdendo seus pais, pais perdendo seus filhos. Aquilo foi um choque pra mim”. 

Relatos como esses são comuns quando conversamos com alguém sobre os acontecimentos daquele dia que entrou para a história da humanidade. Aquele foi o primeiro atentado terrorista transmitido ao vivo para todo o planeta. Pareciam cenas de um filme de ação. Por volta das 8 horas o primeiro avião sequestrado chocou-se com uma das torres gêmeas. Pouco tempo depois outro avião se chocou com a torre gêmea vizinha. Essas torres ficavam no centro de New York e eram um dos símbolos de poder da potência norte-americana. Durante os atentados milhares de pessoas morreram. Algumas foram carbonizadas ou morreram sufocadas pela fumaça das chamas. As que estavam nos aviões seqüestrados morreram na colisão. Outras vítimas que estavam trabalhando no local no momento do impacto, por não terem saída, suicidaram-se, jogando-se do alto do prédio. O total de mortos foi de 2.996 pessoas, incluindo os 19 terroristas sequestradores.

              Logo descobriram a quem pertencia a autoria do atentado aos EUA – Osama Bin Laden, líder da rede terrorista islâmica Al-Qaeda. A mídia então começou noticiar constantes ataques terroristas associados a grupos árabes. Notícias como explosões de homens que por baixo de sua vestimenta, caracteristicamente islâmica, carrega bombas prontas para serem acionadas, provocando seu próprio suicídio e levando consigo quem estiver por perto, tornaram-se freqüentes nos jornais. Criou-se assim um estereotipo árabe. Quando vemos um islâmico andando nas ruas, ou até mesmo entrando num avião, logo surgem comentários preconceituosos, sempre relacionando a etnia como responsável pelo atentado ocorrido há quase dez anos. Por que a mídia somente noticiou o atentado e não procurou investigar os motivos por trás deles? Será mesmo que os EUA foram somente as vítimas da história? por que a mídia não divulga a opressão que os EUA exerce sobre aquele povo? 

                   Perguntas como essas passam por nossas cabeças quando refletimos sobre os acontecimentos daquele dia. Não devemos esquecer dos constantes ataques que os EUA também empregaram contra os árabes. A guerra do golfo pérsico, ocorrida em 1991 foi um exemplo disso. A potencia norte-americana invadiu o território árabe pretendendo tomar seus poços de petróleo. Há quem diga que a guerra do Iraque em 2003 foi a continuação do conflito do golfo. Mais uma vez a mídia contribuiu para estereotipar o povo daquela região, transmitindo a idéia de que seu governante era um ditador sanguinário e que deveria ser exterminado. Será mesmo que o real ditador naquele episódio era Sadan Russen? E mesmo que ele fosse um ditador, o que os EUA tinha haver com isso? O resultado dessa história foi a morte de Sadan Russen  e a ocupação das tropas americanas  em território iraquiano exercendo sua hegemonia sobre eles até hoje. Quantas pessoas inocentes perderam suas vidas durante esses dois grandes conflitos? Milhares

Baseando-se nisso, o povo brasileiro começou formar uma imagem preconceituosa e generalizada  com respeito aos árabes e que se enraizou na nossa cultura desde os acontecimentos do dia 11 de setembro. Ao perguntar para dona Maria o que ela sentiria ao avistar um árabe dentro de um avião ela diz: “Eu sentiria medo por causa da fama que eles tem. Ficaria desconfiada. Eles não são de confiança por causa dos acontecimentos que a gente ouvi falar”.